A importância
da Psicanálise na Educação
Na Europa e na América do Norte, os
conhecimentos derivados da psicanálise vêm
sendo usada na educação, por exemplo, já há um
bom tempo, e ela não é tão rechaçada quanto
aqui
Davy, por que a psicanálise para quem lida com
educação? Não é um tratamento, voltado para as
doenças, pouco tendo a ver com o que se passa
entre professores e alunos?
Eu poderia dizer que não é bem assim. Posso
fazer uma analogia com a medicina. Sabemos que
‘medicina’ significa uma série de técnicas
capazes de lutar contra um grande número de
doenças. Mas em que se baseia a medicina?
Principalmente em dois conjuntos de
conhecimentos, um chamado anatomia, e o outro,
fisiologia. Por um lado, a anatomia é
fundamental não só para a cura de doenças, mas
também para a educação física, a reabilitação,
o esporte, a fisioterapia, etc. Não sei que
usos tem a fisiologia fora da medicina, mas
creio que a nutrição tem nela uma base
fundamental para poder funcionar. Assim, nem
só de doenças vive o conhecimento sobre o
corpo humano.
A psicanálise é constituída de duas partes: As
teorias sobre o funcionamento humano em termos
psicológicos, e as técnicas de tratamento. Da
mesma forma que a anatomia e a fisiologia,
conhecimentos fundamentais, dão uma base
sólida a todas aquelas especialidades acima
mencionadas, o conhecimento psicanalítico
também fornece fundamentos para uma série de
atividades, tais como a educação, a psicologia
(individual e social), agora a psicopedagogia,
etc.
Por que, então, tanta dificuldade para a
aceitação da psicanálise em situações não
patológicas?
O problema é que numa sociedade fechada como
era a nossa até poucas décadas atrás, o
conhecimento do que se passa nos bastidores da
consciência era tido como perigoso, porque
quanto mais fechada a sociedade, maior o teor
de preconceitos usados contra o outro e de
disfarces para melhorar a própria imagem, e a
psicanálise questiona tudo isso. Na Europa e
na América do Norte, os conhecimentos
derivados da psicanálise vêm sendo usada na
educação, por exemplo, já há um bom tempo, e
ela não é tão rechaçada quanto aqui.
E por que Winnicott, e não outro teórico da
psicanálise?
A resposta aqui é uma continuação da idéia
anterior. É que Winnicott, sendo a terceira
geração na história da teoria psicanalítica
(as primeiras, óbvio, eram Freud e Melanie
Klein), já encontrou muitos caminhos abertos,
a teve como ir mais adiante. Até então a
psicanálise lidava basicamente com doenças e
técnicas de tratamento. Embora Freud dissesse,
por exemplo, que o Complexo de Édipo era
universal e funcionava como base para a
personalidade, independente de doenças ou não,
sua preocupação era principalmente com as
patologias causadas por esse complexo. E
Melanie Klein, embora usasse o brinquedo como
técnica de tratamento, não parou para discutir
o brincar em si mesmo, como manifestação
normal da criança.
Winnicott, além do mais, foi pediatra por 40
anos, além de psicanalista, e teve um contato
muito prolongado com um número enorme de
crianças que só estavam doentes fisicamente, e
podiam ser consideradas psicologicamente
saudáveis. Esse contato com as crianças que
não tinham qualquer comprometimento
psicológico o convenceu, creio eu, de que a
psicanálise não podia restringir-se à
compreensão da doença psíquica, precisava ir
além e tentar entender o funcionamento da
mente humana sem a interferência da doença.
Atualmente há tentativas de aplicar também as
teorias de Lacan, por exemplo, à situação da
criança e da aprendizagem, mas não sou
especialista em teoria lacaniana, de modo que
não posso falar muito sobre isso.
O que você vê como o ponto mais importante da
abordagem de Winnicott para a questão da
educação e da aprendizagem?
Esse é um tema interessante. Eu poderia dizer,
para ficar num único aspecto, que Winnicott
percebeu uma coisa que outros psicanalistas
não viram, e que é a espontaneidade e tudo
aquilo que gira em torno dela ou de sua
ausência. Que diferença há, por exemplo, entre
um aluno que aprende bem porque é submisso e
outro que aprende bem porque é espontâneo? Eu
diria que a diferença está em que o aluno
espontâneo talvez não tire notas tão boas
quanto o submisso, mas terá muito mais
curiosidade, terá muito mais idéias próprias,
fará muito mais ligações entre as várias
coisas aprendidas, e assim por diante.
Conseqüência: ele usará bem melhor os
conhecimentos adquiridos quando estiver fora
da escola.
Na minha opinião, essa diferença não era muito
apreciada, até pouco tempo atrás. E então as
escolas começaram a se preocupar com a
espontaneidade e a não-submissão, mas acho que
houve muita confusão nessa área, e muita gente
meteu os pés pelas mãos tentando entortar para
o lado de lá o que antes estava torto para o
lado de cá. Winnicott discute tudo isso, mas a
partir das próprias bases iniciais do
desenvolvimento emocional da criança, e esse
conhecimento a meu ver é fundamental para quem
quer ter realmente uma boa noção de como
funcionam crianças normais. (E também,
obviamente, as que precisam de ajuda para
chegar à normalidade ou ao menos perto dela.)
E falo aqui de crianças porque elas são o
“público alvo” disso que chamamos educação,
não porque o que ele disse só é importante em
termos de crianças.
Última pergunta: E essa questão do brincar,
que importância tem para o processo da
aprendizagem?
Como eu disse antes, Winnicott deu grande
importância ao fenômeno da espontaneidade. É
como se até então a psicanálise considerasse
que o indivíduo age a partir do esquema
estímulo – resposta, e ele foi o primeiro a
dar importância ao comportamento que na
verdade não está respondendo a estímulo
nenhum. Por isso ele fala da diferença entre
agir e reagir, e o que sabemos é que muita
gente – criança ou não – quase nunca consegue
agir, em geral fica esperando que ocorra um
estímulo para então reagir a ele. (Muita gente
não sabe o que fazer nos fins de semana, por
exemplo, ou num feriado. Fica perdida.)
Winnicott percebeu que o indivíduo humano é
naturalmente criativo desde o início, e que o
bebê inventa brincadeiras espontaneamente.
Disso todo o mundo sabe, é claro, mas até
então ninguém percebeu o quanto isso era
importante. Ora, justamente por isso essa
espontaneidade poderia ser reprimida,
impedida, e isso acontece muitas vezes desde
muito cedo na vida do bebê. Quando esse
desastre não acontece, a espontaneidade e a
criatividade da criança naturalmente agem no
sentido de fazer coisas, e de aplicar a
fantasia (o “produto” da criatividade) aos
movimentos e à manipulação de objetos – aquilo
que chamamos de ‘brincar’. Com isso, a criança
age sobre o mundo à sua volta, descobrindo
coisas e inventando outras, pelo puro prazer
de fazê-lo. Ela se sente agente, sujeito, ou
outro nome que se dê a isso, e isto cria a
capacidade de aprender como conquista, como
exercício da própria vontade, o que é muito
diferente de aprender como submissão à vontade
do outro. E é justamente essa atividade – o
brincar – que permite a esse processo de
aprendizagem como conquista instalar-se e
transformar-se na base de tudo aquilo que nós
adultos chamamos de aquisição da cultura. O
conhecimento, a cultura, portanto, do ponto de
vista de Winnicott, podem ser algo de que a
gente se apossa, ou algo que se apossa da
gente. E qualquer pessoa (inclusive os
professores) sente na própria pele a diferença
entre essas duas possibilidades. É claro que
não é possível a aprendizagem dentro da pura
liberdade – não sei que fim levou, afinal, a
famosa escola Summerhill, mas não parece ter
feito tanto sucesso assim... Uma coisa, porém,
é a liberdade apenas relativa, não total, e
outra a ausência quase total de liberdade. É
desse tipo de coisas que Winnicott fala, e a
meu ver é até urgente que as pessoas voltadas
para a educação e a aprendizagem prestem-lhe
um pouco mais de atenção.
Obviamente, cada um dos pontos de que falei
acima é apenas uma breve simplificação, e não
deve ser considerado “toda a verdade”. Mas
para falar das complicações precisaríamos de
vários livros, de modo é melhor ficarmos por
aqui, e terei muito prazer em responder às
perguntas que os leitores vierem a formular. |